Abres o piano roll, escolhes um sintetizador e começas a pôr notas. Vinte minutos depois tens dezasseis compassos que não estão errados, mas que também não ficam na cabeça de ninguém. Quase sempre o problema é de método. Quem pensa em compor procura uma linha longa que conte uma história, e a música eletrónica de pista raramente funciona assim. Numa faixa de house ou de techno, a melodia é um motivo curto, com um ritmo marcado, que se repete por cima de um loop e vai mudando aos poucos.
Os seis passos abaixo levam-te até esse motivo. O Sequenciador de melodias está embebido logo a seguir, para experimentares enquanto lês.
1. Escolhe a escala antes da primeira nota
A escala é o conjunto de notas de que a melodia se pode servir. Escolhida antes de começares, deixas de testar as doze notas do teclado e passas a escolher entre cinco ou sete. Para começar, a pentatónica menor é a mais segura: tem cinco notas e nenhuma choca com as outras, por isso quase qualquer combinação soa a música. Em Dó menor pentatónica são Dó, Mi bemol, Fá, Sol e Si bemol.
O Sequenciador de melodias abre precisamente em Dó menor pentatónica, com a grelha travada à escala, e as notas que ficam fora dela não se deixam escrever. Quando cinco notas deixarem de chegar, passa para a menor natural (Aeolian) ou para o Dorian, que tem a sexta maior e soa mais quente. No Ableton Live consegues o mesmo com o efeito MIDI Scale, que empurra qualquer nota que toques para dentro da escala escolhida.
2. Primeiro o ritmo, depois as notas
Numa faixa de pista, uma melodia reconhece-se primeiro pelo ritmo. Experimenta escrever a linha inteira numa só nota, a tónica, e decide apenas onde as notas caem e quanto duram. Quando esse ritmo já tiver groove sozinho, por cima do kick, começa a mexer nas alturas. Andrea Stolpe, da Berklee, defende o mesmo a partir da canção: a duração das notas, o espaço entre elas e o sítio onde a frase arranca (antes, em cima ou depois do primeiro tempo) mudam uma melodia tanto como as próprias notas.
Deixa silêncio, porque uma linha com pausas respira por cima do loop. E põe pelo menos uma nota entre os tempos. A síncopa é o que faz o corpo reagir a uma linha, e o Oscar, da Underdog Electronic Music School, tem um vídeo inteiro só sobre ela.
3. Um motivo de dois compassos, em pergunta e resposta
Um motivo é uma ideia de três a cinco notas que se repete. Escreve-o em dois compassos, que é exatamente o tamanho da grelha do sequenciador. Nos dois compassos seguintes repete-o quase igual e muda só o fim. Se a primeira metade acaba numa nota que deixa a frase em suspenso, a segunda acaba na tónica e fecha-a. Chama-se pergunta e resposta, e quatro compassos chegam para ela.
Repetir parece pouco a quem começa, mas é a repetição que deixa o ouvido apanhar a melodia. A Berklee, num lado, e o Will Darling, do EDM Tips, no outro, chegam à mesma conclusão: uma melodia que muda a cada compasso nunca chega a ser lembrada, e as pequenas variações só funcionam porque há uma repetição por baixo.
4. Notas do acorde nos tempos fortes
Se já tens uma progressão, apoia a melodia nela. A regra prática é pôr uma nota do acorde que está a soar nos tempos fortes, o 1 e o 3 de cada compasso, e usar as outras notas da escala como passagem entre elas. Uma melodia que acerta no acorde quando o ouvido está mais atento soa ligada à harmonia, mesmo que pelo meio passe por notas de fora.
O Gerador de progressões faz esta ligação por ti. Quando tiveres uma progressão de que gostas, o botão Escrever a melodia abre o sequenciador na mesma tonalidade, no mesmo modo e no mesmo andamento, com os acordes a tocar por baixo e as notas de cada acorde iluminadas na grelha. O Oscar, da Underdog, propõe o caminho inverso, a partir da harmonia e de um arpejador: tiras as notas dos acordes e deixas o ritmo do arpejo sugerir a melodia. Para quem não toca teclado, é dos métodos que melhor resulta.
5. A forma da linha: passos, saltos e um ponto alto
Olha para a melodia como um desenho no piano roll. As que funcionam andam mais por grau conjunto, para a nota vizinha da escala, do que por salto. Quando saltam, costumam voltar por grau no sentido contrário. O livro Making Music, da Ableton, acrescenta uma ideia que dá muito jeito: uma boa melodia tem quase sempre uma nota mais alta do que todas as outras, e essa nota cai muitas vezes num tempo forte. Se a tua linha tem três picos iguais, escolhe um e baixa os outros dois.
A exceção são os arpejos. Quando a melodia percorre as notas de um acorde, os saltos entre elas soam completos e não pedem regresso.
6. Variar sem perder o motivo
Ao fim de trinta e dois compassos, o mesmo motivo cansa. Antes de escreveres outro, varia este. Sobe-o uma oitava no segundo drop, tira-lhe uma nota, desloca-o meio tempo para a frente ou deixa as notas iguais e abre aos poucos o cutoff (frequência de corte) do filtro. No techno, boa parte da variação vem daqui, do som a mudar enquanto as notas ficam. Cada versão deve continuar a ser reconhecível como o mesmo motivo.
O som também decide quantas notas cabem. Um pluck, com attack rápido e decay curto, deixa espaço ao ritmo e aguenta linhas mais cheias. Um lead com release longo enche o espaço e pede menos notas. O artigo sobre o envelope ADSR mostra como passar de um ao outro, e o de como funcionam os sintetizadores explica de onde vem o timbre.
O que muda de género para género
House: a melodia é muitas vezes o próprio acorde, em stabs curtos ou num riff de piano repetido em ritmo sincopado. No deep house e no melodic house, os modos menores com sétimas e nonas dão o carácter. As progressões de acordes no house são o ponto de partida.
Techno: poucas notas, por vezes só duas ou três, repetidas durante muito tempo. A tensão vem da repetição, da dissonância e do som a transformar-se, que é o que o Oscar analisa no vídeo da Underdog sobre teoria musical para techno. O modo Phrygian, com a segunda menor logo acima da tónica, dá aquela cor escura. Mais em como fazer techno.
Organic house: notas longas e espaçadas, em plucks, flautas ou kalimbas, quase sempre em Dorian. A melodia entra tarde, diz pouco e sai cedo. O artigo sobre como fazer organic house explica porque é que a contenção funciona tão bem aqui.
Afro house: pergunta e resposta é a forma mais comum, muitas vezes sobre um vamp de dois acordes, com timbres percussivos como a marimba ou a kalimba e figuras sincopadas que conversam com a percussão. A pentatónica e o Dorian são escolhas seguras. Os padrões de bateria no afro house ajudam a perceber onde a melodia deve deixar espaço.
No sequenciador acima, em Dó menor pentatónica, escreve dois compassos só na nota Dó, com pelo menos uma nota entre os tempos. Liga o kick no groove e ouve se o ritmo já tem balanço sozinho. Depois muda a altura de três notas sem mexer no ritmo, e põe um Sol ou um Mi bemol no tempo 1 do segundo compasso. Exporta o MIDI, arrasta-o para o teu DAW, duplica os dois compassos e, na cópia, muda só a última nota para que a frase acabe em Dó. Quinze minutos chegam.
Daqui, o passo natural é juntar a melodia a uma progressão no Gerador e levar as duas para o DAW. A página de tutoriais de música eletrónica mostra o que vem a seguir no percurso, com o arranjo e a mistura.
- Berklee Online, Andrea Stolpe: Writing Melodies, 3 Simple Tools (em inglês)
- Berklee Online, Jack Perricone: What is Melody in a Song? (em inglês)
- Ableton, Making Music: Creating Melodies 1, Contour (em inglês)
- Ableton Learning Music: Make melodies (em inglês, interativo)
- Underdog Electronic Music School: Make better melodies (without playing an instrument) (vídeo, em inglês)
- Underdog Electronic Music School: Syncopation, the key to groovy rhythms (vídeo, em inglês)
- Underdog Electronic Music School: Music Theory for Techno (vídeo, em inglês)
- EDM Tips, Will Darling: melodies that create emotions (em inglês)
- EDM Tips: 3 simple rules for catchy melodies (vídeo, em inglês)
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